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ROBERTO MENDES

“Roberto Mendes, certamente um músico fora do comum, extraordinário, apegado e apaixonado pela sua gente, sua terra, sua água tão limpa e única, e tão apodrecida hoje com a desculpa do progresso. Progresso miserável matando seus rios, peixes, mariscos… Progresso de chumbo que corrói o solo bendito de tantos canaviais. Ao inferno todos os perversos que iludiram e iludem a “cidade e o rio”, donos dos sons e sabores que aqui na música única de Roberto sente-se, respira-se e saboreia-se. Uma foto do Brasil real, não o virtual e inútil, na nossa cara, entrando pelas narinas, poros e goelas. O “auxílio luxuoso” dos mestres (Guinga, Lenine, Alcione, Pedro Luís e Marco Pereira) que aqui vieram, reafirmam o que digo, penso, choro e com que me delicio. A música ainda pode nos salvar de todo o mal. Bravo e obrigada, Roberto!”
Maria Bethânia

Cantor, compositor e instrumentista com 40 anos de carreira, nove álbuns gravados.
O violonista, compositor, intérprete Roberto Mendes é a mais completa tradução do Recôncavo. Desde criança, com os irmãos, aprendia a cultuar o violão, e na sua terra Santo Amaro da Purificação conheceu os músicos Dilermando Reis e Dino Lopes. “Foram eles que me informaram o que era a chula e suas variantes”, confessou. “Eu sou uma pessoa privilegiada porque conhecer a chula na fonte e não através de discos ou de rádio. Foi através de seus criadores, pessoas que me ensinaram tudo o que sei. Eu não sou a fonte, só faço a ponte. Quisera eu ser um chuleiro, pois isto é mais nobre. O que sei bem é copiar”, brinca, modestamente.
A grande contribuição de Roberto Mendes à música popular contemporânea foi o resgate de um dos gêneros mais populares e cultuados no recôncavo baiano: a chula. Estilo híbrido de harmonia europeia e ritmo originário do batuque africano, a chula ficou restrito à tradição. Ponte entre a tradição e a modernidade, entre o passado e o presente, resgatando gêneros esquecidos, ampliando o painel da música regionalista ou misturando-a com estilo contemporâneo, o compositor e violonista Roberto Mendes é um dos mais inventivos músicos baiano da nova geração. Aplicado aluno dos ensinamentos tropicalistas do conterrâneo Caetano Veloso e discípulo confesso do eclético violão de Gilberto Gil, Mendes revela-se um músico-síntese, cabeça de ponta de um movimento em crescente depuração.

No seu primeiro disco, Flama, ele reinventa o estilo em três canções: “Esse sonho vai dar” (chula-de-estiva, estilo também conhecido como samba amarrado), “Minha terra” e “Tudo de melhor” (uma fusão de chula com candombe, gênero musical procedente do Uruguai). Flama abriu novas possibilidades para a música popular brasileira, reciclando e resgatando gêneros esquecidos. Recria a cultura popular com suas idéias inventivas e simples, sem erudição.
Seu segundo disco, Matriz, o artista passeia pelo candombe (Salvador daqui), o ritmo da Guiana Francesa, cavaxá (Humana), servilhana (Doce esperança), chulas (Caribe, calibre amor, Chula de lá). E o santo-amarense não parou mais, resgatando cada vez mais o gênero musical muito cultuado no recôncavo baiano. Não se sabe por que ele foi abandonado pelos criadores da região, ficando relegado a uma manifestação folclórica. E Roberto Mendes cada vez mais compondo muitas chulas.
Mendes começou a vida artística profissional em 1976, participando de festivais universitários e oficinas musicais com o companheiro Jorge Portugal. Pouco depois, ainda com Portugal e mais Raimundo Sodré, Luciano Lima, Carlinhos Profeta, Arthur Dantas, Benza e Rubem Dantas, formou o Sangue e Raça, grupo inovador que trazia propostas miscigenadoras de vários ritmos e estilos musicais. Com o Sangue e Raça, pôde conhecer, por dentro, o meio artístico e excursionar por todo o país.
Com a separação do grupo provocado pela saída de Raimundo Sodré, Mendes e Portugal retornam para Salvador, onde passaram a se dedicar às suas carreiras específicas de professor (Mendes ensina Matemática). Esta fase dura até que uma nova convocação de Sodré para que o acompanhasse na música “A Massa” e obrigasse a retornar ao Rio, enfrentando uma verdadeira maratona de festivais. Com a boa classificação da música num dos eventos patrocinados pela Globo, Sodré parte para o disco e Mendes o acompanha em “Coisa de Nego” e “Beijo Moreno”, ambos com bons resultados.
A partir das gravações com Sodré, Roberto encoraja-se a abandonar definitivamente a matemática pela música. Passa a acreditar mais nas suas possibilidades artísticas e investe em apresentações individuais, ou em dupla com Jorge Portugal, além de participar como músico acompanhante de discos de outros artistas. Em 1988, ainda com Portugal, concorre ao Festival da Globo com “Caribe, Calibre Amor”, retomando as influências da música caribenha praticamente abandonada por músicos de sua geração.

Desde 1985, Maria Bethânia vem registrando em seus trabalhos anuais músicas de Roberto Mendes e seus parceiros Jorge Portugal e Mabel Veloso. “Esse Sonho vai Dar” está no disco A Beira e o Mar; “Filosofia Pura” e “Lua” no disco Ciclo; “Iorubahia”, em Dezembros; “Ofá” em Maria, onde Bethânia funde o toque afro da canção de Mendes com os vôos vocais do grupo sul-africano Lady Smith Black Mambazo, “Vida Vã”, “Búzios” no disco Olho D´Água. E mais recentemente “Memória das Águas” e “Francisco, Francisco” no disco Pirata, e “Beira-mar” no premiado Mar de Sophia. Sarajane, Daniela Mercury, Beijo, Margareth Menezes e muitos outros artistas já gravaram suas composições, mas quem acreditou há um bom tempo na criatividade de Mendes e continua levando fé é Maria Bethânia.
“Eu estou mais para a rebeldia do tribal do que para o clássico. Onde tiver um tambor, é desse lado que fico”, definiu. E numa apresentação, o parceiro Jorge Portugal afirmou que os olhos de Mendes estavam cravados no rosto da sua terra, Santo Amaro, e através desses olhos que ele vê o mundo.

* Fonte: Blog do Gutenberg – http://blogdogutemberg.blogspot.com

 

 

Outras Informações:

Discografia

CD Cidade e rio (Biscoito Fino, 2008) • CD Tempos quase modernos (2005) • Do Lundu ao Axé – 100 anos de música baiana (2002) • CD Tradução (2001) • CD Minha História (1999, Velas) • CD Voz Guia (1996, Velas) • LP “Roberto Mendes” (1994) • LP “Matriz” (1992) • LP Flama (1988)

Parceiros

Ana Basbaum, Fernando Pessoa, Herculano Neto, Hermínio Belo de Carvalho, Jorge Portugal, José Carlos Capinan, Jota Velloso, Luciano Lima, Nelson Elias, Nizaldo Costa, Raimundo Sodré

Parcerias na interpretação
Alcione, Caetano Veloso, Daniela Mercury, Elba Ramalho, Fagner, Gal Costa, Geraldo Azevedo, Gilberto Gil, Guinga, Lenine, Marcos Pereira, Margareth Menezes, Maria Bethânia, Tânia Alves, Zezé Mota

Músicas em telenovelas

Memórias das águas (Roberto Mendes/J.Portugal), Todo seu Querer (Roberto Mendes/Capinan), Faz de Conta (Roberto Mendes / Herculano Neto)
Prêmios
Tim 2008 – Dentro do Mar tem Rio
Indicação a Prêmios
Sharp (Revelação) – Roberto Mendes e Baianos Luz, Música Popular Brasileira (Regional) – Cidade Rio, Festival 85 – Caribe, Calibre Amor, Festival 80 – Massa
Livros
“Chula, comportamento traduzido em canção” (co-autoria com Waldomiro Junior), “Sotaque em pauta – Chula, o canto do Recôncavo baiano” (co-autoria com Nizaldo Costa).